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12/01/2011
Por: Valor Econômico

Varejo não afeta projeção de aperto já

Relevante informação sobre a atividade econômica sai hoje: a Pesquisa Mensal do Comércio. É improvável, porém, que provoque impacto na trajetória dos juros futuros ou na perspectiva de aperto monetário que deve ser iniciado na semana que vem, quando o Comitê de Política Monetária (Copom) estreia o calendário de 2011. Logo cedo, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulga os dados de novembro. O mercado não espera expansão exuberante, mas crê na sequência do cenário, já consolidado, de demanda firme no país e que levará o Banco Central a agir.

"O varejo vem mostrando crescimento robusto há vários meses. A demanda segue acelerada. O dado de novembro não deve ser surpreendente, mas será positivo e reforçará os sinais de alta da Selic em janeiro que o Banco Central já deu claramente no Relatório de Inflação do último trimestre do ano", comenta Maristella Ansanelli, economista-chefe do Banco Fibra.

As informações que sairão do IBGE são relevantes, mas é evidente que a referência de apenas um mês não mudará a tendência de avanço da demanda, as expectativas do mercado ou ainda as indicações da autoridade monetária, lembra a economista que espera ciclo de alta da Selic de 2 pontos percentuais em 2011, sendo quatro elevações consecutivas de 0,5 ponto a começar agora, em janeiro.

Silvio Campos Neto, economista-chefe do Banco Schahin, que também espera aumento da Selic em 0,5 ponto na semana que vem e um ciclo total de 1,5 ponto percentual, concorda que os dados do varejo não devem alterar as projeções do mercado.

    Alta do compulsório retirou cerca de R$ 61 bi do sistema

Ele alerta, contudo, que os dados do varejo são um importante termômetro da atividade. "O problema da pesquisa que sai hoje é a defasagem. É de novembro. Mas outras informações dão ideia mais atualizada que apontam para um Natal de vendas fortes e janeiro também, porque as promoções chamam os consumidores."

O Fibra já identifica reação considerável também na produção industrial que andava defasada frente ao ritmo mais aquecido do comércio.

"Vínhamos com dados fortes de varejo, crédito e emprego frente a uma produção industrial atrasada. Mas os dados antecedentes de atividade mostram que a produção avançou forte em dezembro, dando mais consistência à perspectiva de alta do juro", explica Maristella Ansanelli.

A economista lembra que as ações de política monetária não produzem efeitos imediatos, têm defasagem de meses ou trimestres entre a adoção e os resultados práticos, mas destaca a influência das decisões do BC sobre as expectativas.

"O impacto real da política monetária demora a acontecer, mas sobre as expectativas ele é muito rápido. Isso é importante para gerar um ambiente positivo quanto à trajetória da inflação. O aumento do compulsório pelo BC, no fim do ano por exemplo, já está tendo efeito. As expectativas pelo menos pararam de piorar", avalia a economista.

Campos Neto pondera também que a pesquisa do comércio de novembro, que sai nesta manhã, não vai refletir esse aumento de compulsório ou as demais medidas anunciadas na primeira semana de dezembro e que terão consequências ao longo do tempo.

No mês passado, o Banco Central elevou alíquotas de recolhimento compulsório sobre depósitos à vista e a prazo e focou diretamente no crédito concedido às pessoas físicas, ao exigir dos bancos maior reserva de capital para algumas modalidades de financiamento. Entre elas, o consignado contratado acima de 36 meses e veículos acima de 24 meses.

Só a elevação do compulsório bancário já provocou a retirada de aproximadamente R$ 61 bilhões do sistema para os cofres do BC.

O requerimento de capital também afeta as instituições ao passar de 11% para 16,5%, para a maioria das operações de crédito a pessoas físicas. Isso quer dizer que toda vez que um banco empresta R$ 100, ele deve recolher ao BC R$ 16,5 e não mais R$ 11 como vinha ocorrendo.

Ontem, na BM&F, os juros futuros cederam ante a expectativa de que o governo anuncie mesmo até o fim do mês um corte no Orçamento, como declarou ontem o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

Apesar do declínio, o mercado mantém a sinalização e alta da Selic em 0,50 ponto em janeiro. Antes do ajuste, o contrato de depósito interfinanceiro (DI) com vencimento em fevereiro fechou a 10,87%; DI janeiro de 2012 a 12,23%; e DI janeiro de 2013, a 12,49% ao ano.

O dólar também recuou 0,05%, fechando a R$ 1,687 para venda.

Angela Bittencourt é repórter especial | E-mail angela.bittencourt@valor.com.br