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01/09/2010
Por: Diário de Pernambuco

Cheios de dívidas, mas ainda otimistas

O sertanejo de Euclides da Cunha era, "antes de tudo, um forte". O nordestino do Brasil atual se mostra, antes de tudo, um otimista inveterado e um consumidor implacável. Reflexo do momento econômico e da melhoria da renda das famílias. Ainda assim, ele diz que não está endividado. Mas quando atrasa as contas, muitas vezes tem que pedir ajuda divina para conseguir pagar. As características são algumas das apresentadas no Índice de Expectativas das Famílias (IEF), divulgado ontem pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Os técnicos do instituto visitaram 3.810 famílias em 214 municípios brasileiros de todas as regiões. Entre os nordestinos ouvidos pelo Ipea, quase 64% disseram que este é, sim, um bom momento para abrir a carteira e comprar bens de consumo duráveis - eletrodomésticos, TVs, equipamentos de som, por exemplo. A empolgação consumista no Nordeste é, disparada, a maior entre as regiões. "Muitas famílias estão se integrando (ao consumo)através do cartão de crédito, do financiamento", lembra Roberto Ferreira, analista financeiro e professor de economia da Faculdade Boa Viagem (FBV).

No outro extremo, as regiões Norte e Sul têm mais famílias receosas em consumir do que otimistas. O placar fica em 51,33% contra 47,33% no Norte e 49,37% contra 41,62% no Sul. Em que pese o otimismo dos nordestinos para gastar e comprar nos próximos meses, ao divulgar os dados da pesquisa, o presidente do Ipea, Marcio Pochmann, destacou que o crescimento econômico do país nos próximos meses deve deixar de ser tão baseado no consumo das famílias. Por isso, acredita ele, o investimento deve ganhar mais espaço nesse crescimento.

Endividamento - A ânsia consumista dos nordestinos pode parecer não pesar muito no bolso das famílias. Ao menos nas ouvidas pelo Ipea, já que 52,77% delas disseram não ter dívidas que comprometam o orçamento. Acima do Nordeste, só o Centro-Oeste e seus 55,44% de entrevistados que disseram não ter dívidas. Entre os nordestinos que admitiramter débitos, 25,63% afirmaram estar "pouco endividados", 12,86% disseram estar "mais ou menos" endividados e 8,54% chutaram o balde. Admitiram estar realmente "muito endividados".

A pesquisa do Ipea traz, entretanto, um dado que requer preocupação. Entre as famílias nordestinas que têm contas atrasadas, impressionantes 46,98% disseram não ter condições de pagá-las. Para 37,21%, o pagamento só poderá ser feito parcialmente. Apenas 15,35% acreditam ter condições de quitar a dívida em atraso totalmente. Para Roberto Ferreira, é sinal de que ainda falta a muita gente traquejo para lidar com o crédito que antes não estava tão disponível. As famílias foram às compras. As menos cuidadosas ficam com dívidas que não podem pagar.

"As pessoas devem ter uma escala de prioridades, fazer pesquisa de preço e calcular se a situação permite a compra sem comprometer demais o orçamento", diz Ferreira. Para quem já gastou, especialmente no cartão de crédito (o vilão dos vilões), a recomendação é sempre procurar quitar a fatura integralmente. Pagar o mínimo, nem pensar. Ir parar no rotativo pode se tornar uma bola de neve, com juros anuais acima de 230%. "Quem tem uma dívida que não consegue pagar deve procurar o credor e tentar negociar. Geralmente consegue cortar boa parte dos juros", reforça o professor.